Category Archives: Uncategorized

Aqui ao lado, numa pequena caixa de cartão na secretária, está um relógio que já não uso faz tempo, mas ainda tem pilha, ainda faz o som do tempo… E nunca me foi tão evidente esta noção, do tempo. Num tempo em que dizíamos que não tínhamos tempo para nada, eis que o tempo voltou, com mais tempo ainda.

Num tempo em que vivemos todos, ao mesmo tempo,  o tempo do mundo – nunca a globalização foi tão sentida!

… e talvez seja o tempo de pensar no que é o tempo, no valor que o tempo afinal tem. Equacionar o sentido de tempo que há muito os sistemas e as sociedades nos têm querido vender e impor como valioso e caro… talvez seja o tempo de pôr o tempo em dia e de repensar o tempo de cada um, o tempo que damos aos outros e que damos a nós próprios.

É talvez tempo de ter uma outra consciência do tempo. De ter serenidade, de discernimento no que se lê, no que se ouve, no que se diz… um tempo de vivência no aqui e no agora.

Infelizmente é um tempo de incertezas, de medo, de muitos medos…
E o medo é ordem. Medo é controle. Medo é segurança. Medo é ficção. O que o torna real, é o medo de que poderá existir, e o facto de ser temido tão profundamente, significa que existe.

O medo suspende o próprio tempo, paralisa-nos. Talvez mesmo por isso seja tempo de comunicar com os outros e com o mundo, de esquecer zangas e distâncias, quebrar os medos, alargando os limites do espaço e do próprio tempo.

E talvez também seja o tempo de perceber que outros tempos aí vêm… e que outros tempos queremos ter: idênticos aos que passamos ou tempos com mais tempoCompreender que virão aí novos tempos, mais ou menos duros que este tempo… o tempo de mudanças climáticas, da escassez, das migrações em massa – e não apenas de países pobres!, das mudanças da terra tal como ela é…
Talvez seja este tempo presente um resultado disso mesmo, uma  estranha desordem na própria ordem humana.

Não é tempo de amantes e suas paixões, nem de encontros fugazes e outros que tais, nem festas e convívios… mas será com certeza um tempo de afectos – ainda que virtuais – de sentimentos e cuidados, próprios, do outro e dos outros…
Num tempo em que não sabemos bem quanto tempo este tempo vai ter, é importante termos tempo, para poder saber se estás bem e ter o tempo para dizer que gosto de ti… um tempo de amor

 

@Alvaiázere by Rob the Gardener

Vão-se desvanecendo os valores, os pouco que ainda iam existindo… É fácil esquecer a justiça e as boas práticas e num qualquer acto individualista, faz-se uma malvadez.  Esquecesse a justiça das coisas – e até a humana – e faz-se algum tipo de mal a alguém, financeiro, profissional, emocional ou carnal… Mesmo correndo o risco de uma possível ilegalidade, mas Who Cares!, ou no nosso melhor português: estão-se a cagar… Mesmo porque acontece tudo tão rápido, já está outra merda a acontecer, e há tanta outras coisas a acontecer, que não faz mal fazer uma malvadez qualquer. Não se pode ser sensível para viver, é mesmo na base do sobreviver.

Se quiseres saber quem te controla, procura á tua volta por quem não permite que o critiques | Voltaire

É importante termos em conta que as verdades, são os seres humanos que as vão construindo e criando, e que também como humanos que somos, temos todo o direito de duvidar racionalmente das mesmas, construindo assim o nosso próprio caminho e processo. O David Bowie dizia algo como: não acredites em mais nada a não ser a tua experiência. Eu acrescentaria, mas aguenta-te!

E é como se fossem partindo os vidros de uma casa, partindo as portas, deixando as ervas cresçam à volta. A tinta das paredes desaparecer com o sol e o vento, com a erosão do tempo, escoando pelas paredes, deixando o céu azul lá longe, em cima, envelhecendo até desmoronar…

 

A terra é o berço da humanidade, mas a humanidade não pode ficar no berço para sempre. | Konstantin Tsiolkovsky

 

Sinto-me confuso, impotente e desorientado perante esta situação planetária – parece-me um bom termo. Vivemos um processo global, nunca antes sentido, nunca antes perspectivado de ser resolvido.

E apesar de tudo, parece que não se passa nada, até dá jeito não saber o que se passa… Mostramos as selfies das férias, em que provavelmente esquecemos que a água onde mergulhamos vai inundar cidades, provocar fluxos migratórios… Sorrimos ao sol, que vai provavelmente esturricar a nossa pele bronzeada, daqui a uns anos… mas apesar disso, a vida continua e é como se nada acontecesse…  

A Fundação Calouste Gulbenkian no livro Water and the Future of Humanity editado em 2014, consagra um capitulo do livro ao tema “The Anthropocene and Water”, onde se realça o papel destruidor que a humanidade tem vindo a exercer no planeta e onde “somos a primeira geração com o conhecimento de como as nossas actividades influenciaram o sistema da terra e, assim, a primeira geração com o poder e a responsabilidade de mudar a nossa relação com o planeta.” 

Mais de metade do carbono acumulado na atmosfera foi emitido nas últimas 3 décadas, exactamente as que se seguiram após termos sabido que aqueles gases são os principais responsáveis pelo aquecimento global… mas mesmo assim a vida continuou, e ou não nos disseram ou não quisemos saber…

Como diz a Sofia, os dinossauras também desapareceram.
Mas não creio que eles fizessem muita ideia das coisas… 

E tudo está a acontecer tão rápido, tão rápido que tenho receio que não nos dê tempo para nos esquecermos que nada está a acontecer e a vida simplesmente mudará…

Importa é a bateria no telemóvel, importa é o 5G, as trotinetas, as bicicletas a motor, os ubers e glovos… cada vez mais moles, controlados e preguiçosos… com uma preguiça tão grande que não nos faz mudar nada… consumismo… com sumismo… con su mismo… consigo mesmo

Como desde sempre nos mostrou, através do dia e da noite, será a natureza mais uma vez, a ditar o nosso mundo.

Entre 2040 e 2050, a cada dia que passar vamos aumentar a esperança de vida num dia.
… e eu pergunto-me, se com tantos avanços tecnológicos, tanto genoma, tanto IA, tanta biotecnologia e tantas outras ias, não conseguiremos alterar o cromossoma que faça com que a espécie humana seja mais isso, humana.

Afinal, o que nos torna humanos?

 

li algures, que a idade se conta pelas histórias que vamos somando ao longo da vida…

Faz hoje um mês que se foi… sim!, no dia 25 de dezembro, uma prenda para o resto da vida. Eu nunca gostei do Natal…  Aliás, partiu no dia 25, enterrou-se a 27 e faria 82 anos, no dia 29, se tivesse lá chegado. Um grande senhor, que por um acaso do destino, foi o meu pai.

…e de uma forma gastronómica e sociocultural, posso dizer que não desapareceu apenas o meu pai, mas sabores, doces e pratos que tive o prazer, eu e muitas outras pessoas, em ter saboreado, cheirado e degustado, abrindo sorrisos e reações de satisfação, que fizeram parte das histórias de casamentos, batizados e festas de tantas pessoas… Tanto que levas contigo, pai…

Desde muito novo, que acompanhava o meu pai, a carregar e levar pratos, mesas e talheres que proporcionaram, aqui e ali, as histórias de vida de muita gente. Não era fácil para uma criança lidar com aquele adulto capricorniano,  calado… mas aprendi tanto! Obrigado pai.

…e se há uma dor que não se pode tirar, também há uma revolta pela “forma” como morreu: pelo menos 22 minutos em agonia respiratória, porque uma enfermeira lhe enfiou uma sopa fria do almoço, com uma seringa pela boca abaixo, na posição horizontal às 16:20… um pobre ser que já mal tinha o reflexo de deglutição. Os hospitais não são centros humanos!  Apesar do respeito pela minha mãe, que assistiu a tudo e que me disse que nós não queremos o mal de ninguém, fiz queixa junto de algumas entidades. Porque estas coisas têm de se saber, porque temos e devemos reclamar – e não apenas nas conversas de café… sou humano e gostaria que coisas similares não acontecessem a mais ninguém futuramente.

Aqui há uns anos, a Associação Comercial de Elvas fez um jantar de homenagem ao meu pai, onde ele disse que gostava de bem servir os outros. Dizia isso, por vezes quando contava histórias curiosas de festas de casamentos e de outras festas que fez… de alguma forma, creio que me deixou isso na herança dos genes.

… questiono-me porque tive de ver o meu pai ir embora sem “ser ele”… mas sim um ser demente, frágil, indefeso e confuso, uma criança. Um homem forte e imponente como era… A resposta que encontro, ou uma das…  é que ele me quis mostrar que por mais… mais dinheiro, bens, títulos e coisas que possamos ser, não podemos nada contra a nossa vida e morte… seja ela qual for.

Mais do que um pai, perdi um grande amigo, que sempre me acompanhou, sempre acreditou em mim e sempre me deu uma segunda, terceira e quarta oportunidade… mas se perdi esse amigo, ganhei uma espécie de anjo, que me acompanha e com quem falo sozinho …  até já pai

A modos de conciliar algumas coisas numa só, aproveito a leva do teaser do projecto que mais me marcou neste ano: Vidas Clandestinas – grato a todos o que neles estiveram comigo e a quem esteve no público – e que deixa uma positiva mensagem de procurar novos caminhos. Um espectáculo que fala da historia do nosso pais – quer se seja amarelo, azul ou vermelho – é historia do teu passado aqui…

E é Na tal data que se desejam coisas boas e essas cenas assim, pois eu desejo que procuremos novos caminhos, transversalmente a tudo, novos caminhos que nos levem a cooperar em vez de competir, socialmente, politicamente, solidariamente, inclusivamente, novos caminhos que nos façam comunicar mais do que deduzir, novos caminhos, nem que sejam dentro de nós próprios, porque quer queiramos quer não, todos implicamos com com os caminhos de todos.
+ amor

Water Talks
Be Water! My Friend!

Para comemorar o lançamento, nesta sessão será feita uma retrospectiva do projecto O Homem que queria ser água – que promove uma sensibilização artística em torno da água e das questões ambientais. Um projecto com 7 anos de existência, apoio institucional da comissão nacional da Unesco, e que está na origem destas mesmas conferências. Desde o início do projecto, passando pelos espectáculos e acções: história, imagens, vídeos, até ao visionamento da animação hipermídia interactiva @gua_um conto digital, que foi reconhecida internacionalmente e faz parte da colectânea Electronic Literature Collection 3, da Electronic Literature Organization | Washington State University Vancouver. Será feita uma viagem por todo este projecto e universo artístico da água.

Desde já, sintam-se convidad@s 😉
A entrada é livre, com direito a um exemplar e sujeita a inscrição aqui: https://www.rocamail.com/pt/event.asp…

 

  

Apesar de já conseguir escrever a uma velocidade que me satisfaz nestes teclados virtuais dos tablets, confesso que tenho saudades do contacto “molástico” das teclas do meu computador, mas uma vontade terapêutica de escrever, faz me atacar o ecran e escrever…

Entrei numa odisseia na minha vida e numa experiência comunitária de teatro que se chama Odisseia e acontece em Seia.

Apesar de conhecer bem estas paragens, onde não apenas passei de visita, mas também a fazer espectáculos no tempo do Teatro das Beiras… mas apesar disso, sou ainda surpreendido pelas gentes e por estes lugares… ou talvez a memória – cada vez mais cheia – vai apagando as recordações de outros tempos e tudo volta a ter um novo input: antropológico, social, cultural e emocional.

Aqui o tempo também é diferente. Diferente do Alentejo, mas também interferindo duma outra forma na dimensão do espaço/tempo. Uma dimensão que se reflete nas expressões das pessoas, na sua forma de andar e verbalizar, num qualquer receio pela própria existência… os corpos andam a medo, meio crispados, quase a pedir desculpa por ocuparem a sua existência… Talvez o frio os tenha soldado, numa repressão dos desejos… Os olhares parecem estar num passado e as colunas vertebrais vergam o corpo a olhar o chão, como se não houvesse uma visão de futuro…s

Seia corre devagar, como os empregados das câmaras, que parecem não terem horas para começar, só para acabar… Seia parece me assim, lenta, encrustada na serra.

Todos os dias ao pequeno almoço, da janela, vejo um agricultor a cultivar a terra. Já lá vão 3 dias, e o seu trabalho parece que não evolui, o terreno que ele está a cavar, não passa do mesmo metro quadrado do primeiro dia.

Um processos de teatro comunitário, tem um princípio Sociocrático – as decisões são tomadas em consenso mesmo que haja opiniões contrárias – onde tudo e todos contam, onde as vivências são matéria prima dramaturgica. Onde se misturam as directrizes técnicas com a ingenuidade e a sede de apreender das pessoas. Onde as assimetrias das regiões e das mentalidades se fundem no processo criativo do espectáculo. 

Odisseia termina hoje a sua residência e processo de criação em Seia, que juntou mais de 25 pessoas dos concelho de Seia, Fornos de Algodres, Gouveia, Celorico da Beira e Manteigas – onde serão apresentados os espectáculos – com uma equipa de 10 profissionais da ASTA.

A estreia será no próximo dia 2 de Julho em Seia. Apareçam e deixem se surpreender por um espectáculo contemporâneo que funde os saberes e as histórias das gentes da serra da estrela com os ritmos que saem de instrumentos e artefactos cénicos criados de destroços dos nossos tempos.