Na tal data, há uns bons anos atrás, o dia 24 era um chinfrim e um corrupio de gente e coisas boas… A minha mãe, mandava me estar em casa pelas 17h, que era mais ou menos quando a azáfama começava. Eu lá dava umas voltas com o pessoal até essa hora e ia para casa de contravontade… mas depois acabava por até gostar daquela interacção tão grande em pouco tempo.
A casa estava bem quente, apesar de no Alentejo estar sempre frio nesta altura. Se passássemos as mãos pelas paredes das escadas, da sala e da cozinha, ficaríamos com elas molhadas pelo vapor de água condensado nelas. Os fornos eram os responsáveis por isso. Acesos e a trabalharem desde cedo. O som do gás a ser queimado e transformado em calor, era bem sonoro, como uns sopros de uns quaisquer monstros que sopravam lume, quando o meu pai abria as portas, para ver o estado dos perus assados… uns apenas assados e outros com um recheio de carnes e legumes. Havia por vezes leitões, codornizes, bifinhos com cogumelos e lombos assados, bacalhau com natas, espiritual, e a dona Janine, uma francesa, pedia sempre umas galantines. Empadas, daquelas altas, rissois e croquetes de carne.
A minha função era atender o telefone, abrir a porta e ajudar as pessoas a levaram as coisas para os carros, por vezes a pé, até suas casas. Até por volta das 22h, a casa dos meus pais era mais concorrida que um centro comercial horas antes da noite dos presentes. As pessoas encontravam-se aqui em casa e acabavam por ficar um pouco… desejavam as boas festas umas às outras, enquanto esperavam que o meu pai atasse com fio de cordel as encomendas. Entretanto, no meio deste corrupio, chegava o meu avó, já com as suas faces bem rosadas e embriagado de cantar ao menino. Sentava-se na sua cadeira, à espera que todo este frenesim passasse para jantarmos.
Depois de muitos beijos, sorrisos, cumprimentos e votos de coisas boas, e já pelas 23h, 23 e pico, quando não era mais tarde… é que os meus pais acabavam por se sentar à mesa, onde eu e o meu avó já petiscávamos e nos arreliávamos um ao outro. O meu pai gostava sempre de fazer amêijoas com carne de porco – e não, não é a mesma coisa que carne de porco à alentejana! O bacalhau, a não ser em almôndegas ou com natas, não fazia parte desta mesa.
Por vezes ao dar as doze badaladas que se ouviam do sino da Se, já os meus pais cabeceavam e dormitavam com os cotovelos apoiados na mesa e as respectivas testas nas mãos, enquanto o meu avó mandava vir com os reclamos da televisão, especialmente com o do azeite galo quando o locutor diz: a cantar desde 1919. Sentado na sua cadeira, dizia sempre: então mas agora os galos  já dão azeite?!.
Era natal…

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