Creio que é a primeira vez que viajo de costas para o sentido da marcha do comboio ou pelo menos é a primeira vez que este deslocamento me deixa a pensar assim. Embora a imagem seja precisamente a contraria, mas parece que vou deixando para trás a vida… e parece que vou fazendo um reload de uma outra… os drivers vão carregando memórias e recordações de muitos anos atrás… e tudo em movimento…

Vejo uma chaminé, daquelas de ladrilhos vermelhos, bem imponente na paisagem, que deita fumo branco espesso, como se fosse um comboio fantasma preso no tempo, no meio da lezíria ribatejana…

Estes trespassares de sítios e de lugares, são como uma flecha que vai cortando o ar velozmente… e consigo abre feridas de lembranças, algumas de pessoas e situações que já tínhamos esquecido ou que o nosso cérebro nos pregou a partida de o fazer.

Há ecos de vozes e sons de outras viagem, de outras pessoas, de outros lugares, que em movimento e sem pensar, se tornam cenários do que parece ser uma outra vida que já não tenho… esta coisa da timeline  é uma coisa muito estranha – aqui e agora estou aqui, mas aqui e agora, poderia jurar que fui ali, sendo esse ali um outro espaço e um outro tempo

Os campos estão encharcados de água, a mesma água que em mim reverbera e faz oscilar as emoções ao ritmo dos pequenos solavancos provocados pelos carris da linha do comboio.

… e tudo em movimento… as saudades de tantos que não vejo há muito, as dores de outros que já não vou ver… e um receio até, por aqueles, ainda tão pequenos que acabam de chegar cá.

E tenho a sensação de que já escrevi tudo isto anteriormente…

Ciclos, não sejam eles movimentos também… contradições da existência e de sentires que se vão misturando com o meu reflexo no vidro da janela da carruagem.

Vejo os meus pelos brancos da barba, e sem os contar tento aventurar um número ao azar de quantos serão… e sei que nunca poderei adivinhar, pois mesmo que o fizesse, nesse mesmo instante ou no instante precisamente seguinte, logo outro perderia a cor… e tudo em movimento.

… e eu que pensava que aos 40 tudo era mais certo, mais conclusivo, mais claro e simples… e como todo o movimento tem um fim, este não podia ser diferente, 17:07h chegada à Covilhã.

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