Apesar de já conseguir escrever a uma velocidade que me satisfaz nestes teclados virtuais dos tablets, confesso que tenho saudades do contacto “molástico” das teclas do meu computador, mas uma vontade terapêutica de escrever, faz me atacar o ecran e escrever…

Entrei numa odisseia na minha vida e numa experiência comunitária de teatro que se chama Odisseia e acontece em Seia.

Apesar de conhecer bem estas paragens, onde não apenas passei de visita, mas também a fazer espectáculos no tempo do Teatro das Beiras… mas apesar disso, sou ainda surpreendido pelas gentes e por estes lugares… ou talvez a memória – cada vez mais cheia – vai apagando as recordações de outros tempos e tudo volta a ter um novo input: antropológico, social, cultural e emocional.

Aqui o tempo também é diferente. Diferente do Alentejo, mas também interferindo duma outra forma na dimensão do espaço/tempo. Uma dimensão que se reflete nas expressões das pessoas, na sua forma de andar e verbalizar, num qualquer receio pela própria existência… os corpos andam a medo, meio crispados, quase a pedir desculpa por ocuparem a sua existência… Talvez o frio os tenha soldado, numa repressão dos desejos… Os olhares parecem estar num passado e as colunas vertebrais vergam o corpo a olhar o chão, como se não houvesse uma visão de futuro…s

Seia corre devagar, como os empregados das câmaras, que parecem não terem horas para começar, só para acabar… Seia parece me assim, lenta, encrustada na serra.

Todos os dias ao pequeno almoço, da janela, vejo um agricultor a cultivar a terra. Já lá vão 3 dias, e o seu trabalho parece que não evolui, o terreno que ele está a cavar, não passa do mesmo metro quadrado do primeiro dia.

Um processos de teatro comunitário, tem um princípio Sociocrático – as decisões são tomadas em consenso mesmo que haja opiniões contrárias – onde tudo e todos contam, onde as vivências são matéria prima dramaturgica. Onde se misturam as directrizes técnicas com a ingenuidade e a sede de apreender das pessoas. Onde as assimetrias das regiões e das mentalidades se fundem no processo criativo do espectáculo. 

Odisseia termina hoje a sua residência e processo de criação em Seia, que juntou mais de 25 pessoas dos concelho de Seia, Fornos de Algodres, Gouveia, Celorico da Beira e Manteigas – onde serão apresentados os espectáculos – com uma equipa de 10 profissionais da ASTA.

A estreia será no próximo dia 2 de Julho em Seia. Apareçam e deixem se surpreender por um espectáculo contemporâneo que funde os saberes e as histórias das gentes da serra da estrela com os ritmos que saem de instrumentos e artefactos cénicos criados de destroços dos nossos tempos.

 

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Como alguns de vocês, também estive presente na apresentação do novo modelo de apoio às artes, no ano passado, no dia 11 julho, no Teatro Nacional D. Maria ll em Lisboa. Numa apresentação rápida, sem possibilidade de grandes perguntas e debate com os convidados que, segundo parecia, fomos chamados particularmente, para poder opinar e ajudar com o novo processo de candidaturas… Mas o tempo das questões foi mínimo, pois a comitiva ainda ia fazer uma outra “perninha” em Faro, depois da hora de almoço… A directora da dgartes, começou a sua apresentação pedindo reserva sobre o que ali se ia falar, não queria que se falasse na comunicação social… Assisti atónito, a um discurso de quem anos antes me entregava as fotocópias, num seminário que por ali aconteceu e que agora, adoptará uma personagem fria e prepotente,  performando perfeitamente o que o poder faz às pessoas… e nada disse de concreto por mais tempo que falasse… percebemos, de ante mão, que algo de crítico iria acontecer neste novo apoio das artes em Portugal.

E chegamos a mais uma situação delicada, frágil e fodida!
E voltamos aqueles dissabores entre as estruturas, na personagem das pessoas de quem teve apoio e quem não teve… e conseguimos desta forma calar uns e fazer outros gritarem… E o que é que temos todos de fazer afinal?

Tudo isto me leva ao que disse, há poucos dias atrás, Thomas Ostermeier numa entrevista em Madrid:
“¿El teatro tiene aún la fuerza suficiente para cambiar algo?
El teatro nunca ha aportado cambios al mundo. Mire el caso de Alemania. El dramaturgo y director alemán más influyente del siglo XX fue Bertolt Brecht, que vivió durante la época en la que Hitler llegó al poder y no pudo hacer nada al respecto. La única manera de conseguir cambios políticos es a través de los movimientos sociales, personas saliendo a la calle para manifestarse, una concienciación solidaria y la acción política”. | El país https://elpais.com/cultura/2018/03/27/actualidad/1522170083_775173.html

E talvez concorde com ele… e talvez também por cá, mesmo sem Brecht, mas com… Já dizia o Alamada Negreiros que “ isto não é um país, é um sítio. E ainda por cima mal frequentado”…

Be Water! My Friend!

No passado dia 1 e 2 do corrente, tive a oportunidade e o prazer de ter estado presente, e ter feito parte, do Encontro Desafios da Água.
Um convite, pelo qual sou grato, da Teresa Fernandes das Águas do Algarve.

Um evento que reuniu além de oradores e especialistas das temáticas da água, oficinas para crianças, com jogos e dinâmicas sobre a água e a sua preservação, empresas ligadas a este sector de novas oportunidades, até uma organização e simpatia conseguidas.

Entre apresentações de professores, presidentes de associações ambientais, políticos, responsáveis de projectos em curso de empresas e instituições, investigadores e até eu como activista e artista, falou-se não apenas na água, mas nos desafios que a mesma nos está, e vai lançar nos próximos tempos… Desde o tratamento e reutilização da água, a sua distribuição, os seus contaminantes, a nossa poluição, os químicos e a energia, a dessalinização e as “fábricas de água” – nome que se pretende dar às ETARES – pois se se pensar bem, funcionam como tal, apesar de ainda não estarmos preparados para o aceitar…

Sem duvida que, para quem assistiu, pode compreender e consciencializar que a água será um grande desafio. Um futuro hoje, talvez já atrasado, porque em relação a outros países, a nossa educação e sensibilização ambiental está muito longe de saudável, ao continuamos a pensar que ainda vai acontecer, o que na realidade, já está a acontecer!

O que também me valeu nesta experiência, foi perceber cada vez mais, toda esta minha inquietação em relação a um dos maiores bens da natureza, a água… e o que venho pensando à muito, será mesmo uma realidade: os novos senhores do mundo, serão os que tiverem e “dominarem” a água!

Como recordo ter dito, em improviso, no final da minha apresentação: pensem na água, pois é pensar em vocês mesmos…

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é o dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?
– Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama

Entre outras andanças, tenho o prazer de começar o ano a terminar a criação de um trabalho conjunto com a minha amiga e colega de teatrices, Magda Dimas. Um sonho que se torna realidade. Uma loucura – talvez como a dos lusitanos de outros tempos – que chega a bom porto, e ainda não é o da índia – mas lá chegaremos.

Uma odisseia que vai chegar ao fim no dia 8 de Fevereiro, no Agrupamento de Escolas do Teixoso, numa cooprodução com a ASTA, Covilhã.

Os lusíadas | Conferência Animada, é uma espectáculo de teatro, formas animadas e vídeo onde de uma forma divertida, dinâmica e contemporânea, podemos acompanhar a viagem de Vasco da Gama e da sua armada á India.

Dois conferencistas, a Drª Lusía e o Prof. Das, apresentam uma história com séculos de existência sobre a valentia do povo português na sua odisseia pelos mares nunca antes navegados. Todo o ambiente fantástico desta obra será realizado através de máscaras, da manipulação e animação de pequenos barcos e bonecos representando a tripulação e a armada lusitana.
Um aquário planisfério serve de cenário e animação ao espectáculo que é acompanhado de imagens e vídeos documentais, explicativos de todo a historia dos Lusíadas de Luis Vaz de Camões.

Claro que o espectáculo se encontra para venda e se o quiserem divulgar 😉

https://lusiadasanimado.wixsite.com/conferencia

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Depois daquele dia e da história do homem água que o meu avô me contará, eu nunca mais fui o mesmo e a minha vida mudou.

Seis anos depois, a convite da ENA – Agência de Energia e Ambiente da Arrábida,  o espectáculo O homem que queria ser água volta à cena,
pelas 17h do dia 28 de Novembro na Biblioteca Municipal de Palmela.

6 anos depois o espectáculo foi recriado. Além da narração da história do personagem Agua e da sensibilização para o mundo da água e para as questões ambientais, o conto digital criado a partir do próprio espectáculo e reconhecido internacionalmente pela Electronic Literature Collection 3, integra agora a ação. 

O conto digital é projectado em cena, juntamente com a performance do actor.
O mundo da personagem em 2 registos simultâneos: o da personagem e a virtualidade do seu pensamento e imaginação. Um espectáculo que  simultaneamente conta a sua própria história numa animação digital.

Uma proposta que põe em causa os limites do teatro, a dramaturgia da cena e a própria narrativa. Aliciando o espectador numa narrativa transdisciplinar, escolhendo a forma como quer seguir a história do homem que passou a sua vida, a estudar a natureza com o propósito de se transformar em água. 


Apareçam! A entrada é livre 😉

Site do espectáculo, aqui.
Vídeos do conto digital projectados em cena:

No próximo dia 21 de Novembro, terá lugar a 4ª e última sessão das Water Talks. O convidado é o Biólogo e Instrutor de Mergulho, Nuno Coelho. A água também é todo um mundo subaquático, rico em fauna e flora, com tesouros de barcos de outros tempos e muitos plásticos da actualidade. Um mundo desconhecido para a grande maioria de todos nós.

Nuno Coelho irá abordar a água, segundo essa visão subaquática. Uma partilha da experiência e consciência do que se sente e vê, com particular incidência no lixo que se encontra nos mares.

Eu e o Nuno, além de amigos de longa data, temos um curso de teatro em conjunto, alguns espectáculos e colaborações…  e ambos, de forma diferente, uma grande ligação com a água. Foi também o Nuno, como contador de histórias da tradição oral, que me orientou no inicio de todo este projecto – os ensaios do espectáculo O homem que queria ser água –  curiosamente, 6 anos depois, volta à cena no dia 28 de Novembro na Biblioteca Municipal de Palmela.

Além deste ciclo de conversas terminar com uma visão diferente sobre a água,  também a água dará origem a  uma conversa teatral de amigos e sonhadores.  Onde? No sitio do costume – Roca Lisboa Gallery – onde as pessoas nos tratam com um sorriso nos lábio e tudo flui como a água. Como sempre as inscrições são gratuitas e obrigatórias, aqui.

De ante mão, um obrigado a todos aqueles que me acompanham desde a 1ª conversa e à Sónia que me lançou o desafiou. Grato!