Um das coisas que me faz regressar à minha infância e inicio da adolescência, são os duches de água fria, que não é fria, mas morna… pois o meu pai, há muitos anos – como tantos pais do Alentejo – colocou um depósito de água no terraço, que claro está, passa o dia a levar com o sol e aquece a água. Como tantos pais, porque me recordo que nessa altura, toda a gente que podia, o fazia. Para termos sempre água… lembro-me que nessa altura havia cortes e contenções de água – uma coisa que infelizmente, vai entrar na moda daqui a uns tempos…

E de banho em banho… também me recordo muito de chapinhar no Guadiana. Para a Ajuda, pra Belver, pro meio do mato. Era uma grande festa. Mais na altura da Páscoa, quando os dias aumentam e aquecem, e tudo começa a fluir. Aos domingos, aos feriados, na segunda feira de rebolar o vale.
Íamos muito cedo, ás vezes ia na camioneta do Julio da Vidreira. Levávamos de tudo… desde cavaletes e pranchas de madeira para fazermos mesas, todo o tipo de pitéus e guloseimas, até à Coca Cola e Fanta espanholas, bem como os Camping gaz para nos dar luz depois do por do sol e aquecerem a comida.
A Anica, o Luís Banana, a Guida, a Marta, o Martinho… bem!, éramos tantos e apareciam sempre mais… Parecíamos uma trupe de saltimbancos, com o estaminé que montávamos, a cumplicidade, as anedotas e a boa disposição.

Pensando bem… talvez a minha vida profissional tenha começado nessa altura… ou talvez ainda não tenha deixado de ser adolescente. Sem dúvida que sou muito do que sou – e grato – por aqueles momentos e por todas aquelas pessoas e energias.

Não havia telemóveis, nem tablets, nem… Só nós e a natureza e as nossas vontades. A criatividade passava pelos paus e pelas pedras, pelas correrias e rebolares encosta abaixo, pelos mergulhos frescos, pelas aproximações às vacas e as imitações dos seus sons.

Por estes dias o Guadiana é um refugio de fim de tarde… longe de todas as possibilidades de contágios…  Já não corro como naquela altura, mas continuo a brincar aos saltimbancos… fazendo exercícios de equilíbrio e concentração em cima de montes de pedras, meditando e camuflando-me com a mãe terra,  apurando a voz para emitar o som das vacas, dos patos que passam a voar e o salto dos peixes na água – pronto!, imagino como será o movimento deles, enquanto me deixo boiar dentro de água.

E sem duvida que trago ideias, que as utilizo no que tenho, entre mãos a fazer…

O inferno está vazio e todos os demónios estão aqui. |  William Shakespear

Já la vai o tempo em que quem era mau, sádico, desobediente, mentiroso, maquiavélico, ladrão e criminoso ia para o inferno.
Creio que deus ou os deuses, se fartaram deles e agora remetem essas mesmas almas incandescentes para a terra, ao lado de quem ainda tem um pingo de consciência, de quem ainda luta por alguma coerência na vida, na vida de cada um, e na dos outros.

Mas os deuses fartaram-se e já não sabendo mais o que fazer, limparam os infernos e como uma oferenda cega, como um nectar envenenado, minaram as nossas vidas com esses, estes, demónios.
Eles estão em todo o lado, desde o nosso vizinho que mata a filha e a mãe, até ao policia que sufoca alguém, ao politico que só quer saber do seus interesses e manda os seus súbditos criarem estratagemas para dar, por um lado, aos amigos e roubar por outro, o comum mortal, aos juizes sem piedade, aos… aos…

A terra está a transbordar de maldade, interesse e individualismo – salve-se quem puder! Talvez mesmo uma cegueira e vicio pela desgraça se tenha apoderado de muitos – nem os deuses sabem mais o que fazer com tais seres.

E vivemos todos com a sombra de uma corda que balança junto dos nosso pescoços, assaltando os nosso pensamentos e fazendo rugas na almofada para não nos deixar descansar. O inferno está vazio, não só porque os deuses o limparam e atiraram, como qualquer desgraça para a terra, mas porque nos dias que correm as chamas incendeiam as cidades, os campos, os rios e os mares… 

Sei que em todos os tempos, e de tempos em tempos, os deuses semearem na terra, desgraças e atiraram demónios cá para baixo, para manterem um “cash flow” entre o inferno e o céu. Mas creio que hoje em dia, a revolta e o burnout dos deuses é tão grande que nem eles mais querem saber… e atiraram para as nossas vidas a resolução de tantos julgamentos e de tanta podridão…

E o que fazemos nos?, pobres seres crédulos na esperança que cheguem dias melhores… acabamos por aceitar sem nada ou pouco fazer, é a vida! – dirão alguns, como se um terrível devir nos alcançasse sem mais. Seja pela vontade dos deuses, seja pela nossa incapacidade de agir ou pela desmoralização de ser…

O inferno está vazio de demónios, mas aqui em baixo vamos sendo todos almas penadas e a penar pela frieza, pelas mentiras, pelo cinismo, pelo sadismo de todos aqueles que deveriam estar algures, a dar luz com as chamas dos seus corpos podres e pobres a arder…

E muito me engano – os deuses queiram que sim – o inferno vai continuar a ser aqui…

E por vezes… passam 20 anos! Parabéns ASTA.
Não vou prolongar-me nas produções, nos projectos e nas pessoas que durante estes 20 anos, passaram, criaram e ajudaram a sustentar e dar brilho a esta estrutura cultural.

Gostava sim de dizer que 20 anos, numa estrutura cultural, são muitos anos, principalmente num país sem estratégias culturais, com apoios incertos e pouco fiáveis, sem dirigentes que valham à cultura o seu merecido valor… 

20 anos onde alguns são de aflição, de privações, de incertezas e receios, pela própria sobrevivência da estrutura e dos seus próprios membros… são anos de entrega ao que muitas vezes, não se sabe se irá acontecer…

Por isso, não apenas o meu orgulho e reconhecimento, mas o meu respeito pelo Sergio, pela Carmo e pelo Joca, que sem dúvida alguma, passaram pelo que disse… e ainda assim, mantiveram uma estrutura cultural a navegar todos estes anos … um pouco por todo o mundo.

Como se diz em terras da Covilhã, bem hajam! 

Estou consumido, de ver e ouvir que tudo vai ficar bem.

Estou consumido de ver os novos modelos de máscaras – já me basta cruzar-me com vocês na rua e ter de as ver… Prefiro ver a vossa expressão, o vosso sorriso! E sim!, acho que as máscaras são importantes e imprescindíveis!, mas nas fotos também?!!

Consumido de ver os streamings… por mais virtuosos, por mais criativos e por mais boa vontade que tenham de entreter as pessoas e ocupar o vosso tempo, na recriação de linguagens que não o são… Consumido de ver que nem todos podemos ser artistas e que muitos confundem o entretenimento com a arte… Talvez mesmo o Ministério da Cultura – que até há data – não apoiou em nada os seus artistas, esteja a pensar que não vale a pena fazê-lo… pois eles, mesmo sem dinheiro continuam a trabalhar, bem ou mal…

Consumido de aulas de ginastica e yoga ás 10 da manhã, ás 13h e ás 18h…E tantos webinar’s fantásticos e coisa que tais… Só me parece que estamos nós próprios a ser cúmplices e a criar um futuro de ausência física, frio e distante…

Eu sei! Posso não ler, posso não ver, posso desligar… mas no meio disto tudo o que eu não quero perder, é o pouco contacto humano – seja ele feito por que meio for – com os meus amigos e com as pessoas que por algum motivo me preocupo ou interesso.

Creio que tenho e temos o direito de estar fod… porque se pensarem bem, é o que realmente estamos! Não só porque os apoios são poucos, a austeridade está ao virar da esquina… e o mundo nunca mais vai ser o mesmo, e o que esta para vir – oxalá me engane – vai ser pior do que esta pandemia.

Então quem tem filhos!, o legado que lhes vão deixar não será com certeza parecido ao que nos deixaram os nossos pais – eu sei que eles já pensavam da mesma forma que eu estou a pensar. Mas hoje em dia a consciência, ou a falta dela, é bem maior do que há décadas atrás.
O mundo vai sofrer grandes transformações nos próximos anos, talvez as que vão marcar o próximo século, e quero acreditar que ainda está nas nossas mãos e nas nossas consciências, pelo menos, pensar nisso…

Mas o que me mais me inquieta no meio disto tudo, e além do vírus, é o que estará a acontecer por detrás de tudo isto – porque está!  Tenho sempre receio destes períodos históricos em que só se fala de uma coisa… como uma qualquer manobra de dispersão para se poder fazer tantas outras, longe dos olhos e dos ouvidos de todos… Os meios de comunicação estão muito ocupados a transmitir “pão e circo” para manter a atenção do povo, afastada da agenda da elite política e da economia, para tornar o povo obediente e leal como escravo.

As guerras de interesses e as outras, não terminaram… a exploração laborar, não terminou… o envenenamento dos cultivos, Monsanto não terminou, a agricultura intensiva não terminou… o apropriamento e monopólio da água não terminou… a poluição não terminou, pelo contrario, aumentou com tanta luva e máscara descartável… e por ai fora.
Há uma grande quantidade de coisas que não ficaram em quarentena. Muito provavelmente esta quarentena só as veio potenciar ainda mais.

Inquieta-me o rastreamento por telemóvel dos doentes covid… apesar de sabermos que já somos todos rastreados pelo que fazemos, onde estamos e o que procuramos e vemos… mas dar autorização?!, ou muito provavelmente nem a vamos ter de dar… parece-me o principio do fim da liberdade humana.

E sim!, sempre fui sensível às teorias da conspiração – sempre mostraram outros pontos de vista – e como todos sabemos, um pau tem sempre dois bicos.

Aqui ao lado, numa pequena caixa de cartão na secretária, está um relógio que já não uso faz tempo, mas ainda tem pilha, ainda faz o som do tempo… E nunca me foi tão evidente esta noção, do tempo. Num tempo em que dizíamos que não tínhamos tempo para nada, eis que o tempo voltou, com mais tempo ainda.

Num tempo em que vivemos todos, ao mesmo tempo,  o tempo do mundo – nunca a globalização foi tão sentida!

… e talvez seja o tempo de pensar no que é o tempo, no valor que o tempo afinal tem. Equacionar o sentido de tempo que há muito os sistemas e as sociedades nos têm querido vender e impor como valioso e caro… talvez seja o tempo de pôr o tempo em dia e de repensar o tempo de cada um, o tempo que damos aos outros e que damos a nós próprios.

É talvez tempo de ter uma outra consciência do tempo. De ter serenidade, de discernimento no que se lê, no que se ouve, no que se diz… um tempo de vivência no aqui e no agora.

Infelizmente é um tempo de incertezas, de medo, de muitos medos…
E o medo é ordem. Medo é controle. Medo é segurança. Medo é ficção. O que o torna real, é o medo de que poderá existir, e o facto de ser temido tão profundamente, significa que existe.

O medo suspende o próprio tempo, paralisa-nos. Talvez mesmo por isso seja tempo de comunicar com os outros e com o mundo, de esquecer zangas e distâncias, quebrar os medos, alargando os limites do espaço e do próprio tempo.

E talvez também seja o tempo de perceber que outros tempos aí vêm… e que outros tempos queremos ter: idênticos aos que passamos ou tempos com mais tempoCompreender que virão aí novos tempos, mais ou menos duros que este tempo… o tempo de mudanças climáticas, da escassez, das migrações em massa – e não apenas de países pobres!, das mudanças da terra tal como ela é…
Talvez seja este tempo presente um resultado disso mesmo, uma  estranha desordem na própria ordem humana.

Não é tempo de amantes e suas paixões, nem de encontros fugazes e outros que tais, nem festas e convívios… mas será com certeza um tempo de afectos – ainda que virtuais – de sentimentos e cuidados, próprios, do outro e dos outros…
Num tempo em que não sabemos bem quanto tempo este tempo vai ter, é importante termos tempo, para poder saber se estás bem e ter o tempo para dizer que gosto de ti… um tempo de amor

 

@Alvaiázere by Rob the Gardener

Vão-se desvanecendo os valores, os pouco que ainda iam existindo… É fácil esquecer a justiça e as boas práticas e num qualquer acto individualista, faz-se uma malvadez.  Esquecesse a justiça das coisas – e até a humana – e faz-se algum tipo de mal a alguém, financeiro, profissional, emocional ou carnal… Mesmo correndo o risco de uma possível ilegalidade, mas Who Cares!, ou no nosso melhor português: estão-se a cagar… Mesmo porque acontece tudo tão rápido, já está outra merda a acontecer, e há tanta outras coisas a acontecer, que não faz mal fazer uma malvadez qualquer. Não se pode ser sensível para viver, é mesmo na base do sobreviver.

Se quiseres saber quem te controla, procura á tua volta por quem não permite que o critiques | Voltaire

É importante termos em conta que as verdades, são os seres humanos que as vão construindo e criando, e que também como humanos que somos, temos todo o direito de duvidar racionalmente das mesmas, construindo assim o nosso próprio caminho e processo. O David Bowie dizia algo como: não acredites em mais nada a não ser a tua experiência. Eu acrescentaria, mas aguenta-te!

E é como se fossem partindo os vidros de uma casa, partindo as portas, deixando as ervas cresçam à volta. A tinta das paredes desaparecer com o sol e o vento, com a erosão do tempo, escoando pelas paredes, deixando o céu azul lá longe, em cima, envelhecendo até desmoronar…