O inferno está vazio e todos os demónios estão aqui. |  William Shakespear

Já la vai o tempo em que quem era mau, sádico, desobediente, mentiroso, maquiavélico, ladrão e criminoso ia para o inferno.
Creio que deus ou os deuses, se fartaram deles e agora remetem essas mesmas almas incandescentes para a terra, ao lado de quem ainda tem um pingo de consciência, de quem ainda luta por alguma coerência na vida, na vida de cada um, e na dos outros.

Mas os deuses fartaram-se e já não sabendo mais o que fazer, limparam os infernos e como uma oferenda cega, como um nectar envenenado, minaram as nossas vidas com esses, estes, demónios.
Eles estão em todo o lado, desde o nosso vizinho que mata a filha e a mãe, até ao policia que sufoca alguém, ao politico que só quer saber do seus interesses e manda os seus súbditos criarem estratagemas para dar, por um lado, aos amigos e roubar por outro, o comum mortal, aos juizes sem piedade, aos… aos…

A terra está a transbordar de maldade, interesse e individualismo – salve-se quem puder! Talvez mesmo uma cegueira e vicio pela desgraça se tenha apoderado de muitos – nem os deuses sabem mais o que fazer com tais seres.

E vivemos todos com a sombra de uma corda que balança junto dos nosso pescoços, assaltando os nosso pensamentos e fazendo rugas na almofada para não nos deixar descansar. O inferno está vazio, não só porque os deuses o limparam e atiraram, como qualquer desgraça para a terra, mas porque nos dias que correm as chamas incendeiam as cidades, os campos, os rios e os mares… 

Sei que em todos os tempos, e de tempos em tempos, os deuses semearem na terra, desgraças e atiraram demónios cá para baixo, para manterem um “cash flow” entre o inferno e o céu. Mas creio que hoje em dia, a revolta e o burnout dos deuses é tão grande que nem eles mais querem saber… e atiraram para as nossas vidas a resolução de tantos julgamentos e de tanta podridão…

E o que fazemos nos?, pobres seres crédulos na esperança que cheguem dias melhores… acabamos por aceitar sem nada ou pouco fazer, é a vida! – dirão alguns, como se um terrível devir nos alcançasse sem mais. Seja pela vontade dos deuses, seja pela nossa incapacidade de agir ou pela desmoralização de ser…

O inferno está vazio de demónios, mas aqui em baixo vamos sendo todos almas penadas e a penar pela frieza, pelas mentiras, pelo cinismo, pelo sadismo de todos aqueles que deveriam estar algures, a dar luz com as chamas dos seus corpos podres e pobres a arder…

E muito me engano – os deuses queiram que sim – o inferno vai continuar a ser aqui…

E por vezes… passam 20 anos! Parabéns ASTA.
Não vou prolongar-me nas produções, nos projectos e nas pessoas que durante estes 20 anos, passaram, criaram e ajudaram a sustentar e dar brilho a esta estrutura cultural.

Gostava sim de dizer que 20 anos, numa estrutura cultural, são muitos anos, principalmente num país sem estratégias culturais, com apoios incertos e pouco fiáveis, sem dirigentes que valham à cultura o seu merecido valor… 

20 anos onde alguns são de aflição, de privações, de incertezas e receios, pela própria sobrevivência da estrutura e dos seus próprios membros… são anos de entrega ao que muitas vezes, não se sabe se irá acontecer…

Por isso, não apenas o meu orgulho e reconhecimento, mas o meu respeito pelo Sergio, pela Carmo e pelo Joca, que sem dúvida alguma, passaram pelo que disse… e ainda assim, mantiveram uma estrutura cultural a navegar todos estes anos … um pouco por todo o mundo.

Como se diz em terras da Covilhã, bem hajam! 

Estou consumido, de ver e ouvir que tudo vai ficar bem.

Estou consumido de ver os novos modelos de máscaras – já me basta cruzar-me com vocês na rua e ter de as ver… Prefiro ver a vossa expressão, o vosso sorriso! E sim!, acho que as máscaras são importantes e imprescindíveis!, mas nas fotos também?!!

Consumido de ver os streamings… por mais virtuosos, por mais criativos e por mais boa vontade que tenham de entreter as pessoas e ocupar o vosso tempo, na recriação de linguagens que não o são… Consumido de ver que nem todos podemos ser artistas e que muitos confundem o entretenimento com a arte… Talvez mesmo o Ministério da Cultura – que até há data – não apoiou em nada os seus artistas, esteja a pensar que não vale a pena fazê-lo… pois eles, mesmo sem dinheiro continuam a trabalhar, bem ou mal…

Consumido de aulas de ginastica e yoga ás 10 da manhã, ás 13h e ás 18h…E tantos webinar’s fantásticos e coisa que tais… Só me parece que estamos nós próprios a ser cúmplices e a criar um futuro de ausência física, frio e distante…

Eu sei! Posso não ler, posso não ver, posso desligar… mas no meio disto tudo o que eu não quero perder, é o pouco contacto humano – seja ele feito por que meio for – com os meus amigos e com as pessoas que por algum motivo me preocupo ou interesso.

Creio que tenho e temos o direito de estar fod… porque se pensarem bem, é o que realmente estamos! Não só porque os apoios são poucos, a austeridade está ao virar da esquina… e o mundo nunca mais vai ser o mesmo, e o que esta para vir – oxalá me engane – vai ser pior do que esta pandemia.

Então quem tem filhos!, o legado que lhes vão deixar não será com certeza parecido ao que nos deixaram os nossos pais – eu sei que eles já pensavam da mesma forma que eu estou a pensar. Mas hoje em dia a consciência, ou a falta dela, é bem maior do que há décadas atrás.
O mundo vai sofrer grandes transformações nos próximos anos, talvez as que vão marcar o próximo século, e quero acreditar que ainda está nas nossas mãos e nas nossas consciências, pelo menos, pensar nisso…

Mas o que me mais me inquieta no meio disto tudo, e além do vírus, é o que estará a acontecer por detrás de tudo isto – porque está!  Tenho sempre receio destes períodos históricos em que só se fala de uma coisa… como uma qualquer manobra de dispersão para se poder fazer tantas outras, longe dos olhos e dos ouvidos de todos… Os meios de comunicação estão muito ocupados a transmitir “pão e circo” para manter a atenção do povo, afastada da agenda da elite política e da economia, para tornar o povo obediente e leal como escravo.

As guerras de interesses e as outras, não terminaram… a exploração laborar, não terminou… o envenenamento dos cultivos, Monsanto não terminou, a agricultura intensiva não terminou… o apropriamento e monopólio da água não terminou… a poluição não terminou, pelo contrario, aumentou com tanta luva e máscara descartável… e por ai fora.
Há uma grande quantidade de coisas que não ficaram em quarentena. Muito provavelmente esta quarentena só as veio potenciar ainda mais.

Inquieta-me o rastreamento por telemóvel dos doentes covid… apesar de sabermos que já somos todos rastreados pelo que fazemos, onde estamos e o que procuramos e vemos… mas dar autorização?!, ou muito provavelmente nem a vamos ter de dar… parece-me o principio do fim da liberdade humana.

E sim!, sempre fui sensível às teorias da conspiração – sempre mostraram outros pontos de vista – e como todos sabemos, um pau tem sempre dois bicos.

Aqui ao lado, numa pequena caixa de cartão na secretária, está um relógio que já não uso faz tempo, mas ainda tem pilha, ainda faz o som do tempo… E nunca me foi tão evidente esta noção, do tempo. Num tempo em que dizíamos que não tínhamos tempo para nada, eis que o tempo voltou, com mais tempo ainda.

Num tempo em que vivemos todos, ao mesmo tempo,  o tempo do mundo – nunca a globalização foi tão sentida!

… e talvez seja o tempo de pensar no que é o tempo, no valor que o tempo afinal tem. Equacionar o sentido de tempo que há muito os sistemas e as sociedades nos têm querido vender e impor como valioso e caro… talvez seja o tempo de pôr o tempo em dia e de repensar o tempo de cada um, o tempo que damos aos outros e que damos a nós próprios.

É talvez tempo de ter uma outra consciência do tempo. De ter serenidade, de discernimento no que se lê, no que se ouve, no que se diz… um tempo de vivência no aqui e no agora.

Infelizmente é um tempo de incertezas, de medo, de muitos medos…
E o medo é ordem. Medo é controle. Medo é segurança. Medo é ficção. O que o torna real, é o medo de que poderá existir, e o facto de ser temido tão profundamente, significa que existe.

O medo suspende o próprio tempo, paralisa-nos. Talvez mesmo por isso seja tempo de comunicar com os outros e com o mundo, de esquecer zangas e distâncias, quebrar os medos, alargando os limites do espaço e do próprio tempo.

E talvez também seja o tempo de perceber que outros tempos aí vêm… e que outros tempos queremos ter: idênticos aos que passamos ou tempos com mais tempoCompreender que virão aí novos tempos, mais ou menos duros que este tempo… o tempo de mudanças climáticas, da escassez, das migrações em massa – e não apenas de países pobres!, das mudanças da terra tal como ela é…
Talvez seja este tempo presente um resultado disso mesmo, uma  estranha desordem na própria ordem humana.

Não é tempo de amantes e suas paixões, nem de encontros fugazes e outros que tais, nem festas e convívios… mas será com certeza um tempo de afectos – ainda que virtuais – de sentimentos e cuidados, próprios, do outro e dos outros…
Num tempo em que não sabemos bem quanto tempo este tempo vai ter, é importante termos tempo, para poder saber se estás bem e ter o tempo para dizer que gosto de ti… um tempo de amor

 

@Alvaiázere by Rob the Gardener

Vão-se desvanecendo os valores, os pouco que ainda iam existindo… É fácil esquecer a justiça e as boas práticas e num qualquer acto individualista, faz-se uma malvadez.  Esquecesse a justiça das coisas – e até a humana – e faz-se algum tipo de mal a alguém, financeiro, profissional, emocional ou carnal… Mesmo correndo o risco de uma possível ilegalidade, mas Who Cares!, ou no nosso melhor português: estão-se a cagar… Mesmo porque acontece tudo tão rápido, já está outra merda a acontecer, e há tanta outras coisas a acontecer, que não faz mal fazer uma malvadez qualquer. Não se pode ser sensível para viver, é mesmo na base do sobreviver.

Se quiseres saber quem te controla, procura á tua volta por quem não permite que o critiques | Voltaire

É importante termos em conta que as verdades, são os seres humanos que as vão construindo e criando, e que também como humanos que somos, temos todo o direito de duvidar racionalmente das mesmas, construindo assim o nosso próprio caminho e processo. O David Bowie dizia algo como: não acredites em mais nada a não ser a tua experiência. Eu acrescentaria, mas aguenta-te!

E é como se fossem partindo os vidros de uma casa, partindo as portas, deixando as ervas cresçam à volta. A tinta das paredes desaparecer com o sol e o vento, com a erosão do tempo, escoando pelas paredes, deixando o céu azul lá longe, em cima, envelhecendo até desmoronar…

 

Faz no próximo dia 15 de Dezembro, 8 anos que estreou o espectáculo O homem que queria ser água, no espaço Ágora da Biblioteca da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, Campus da Caparica.
Um convite do Professor José Moura, para as comemorações do Ano Internacional da Química, onde a água tinha um papel primordial. Convite pelo qual serei eternamente grato.

Há mais de 8 anos que venho investigando, pesquisando e recriando de uma forma artística e de consciencialização a água e as questões ambientais.
Creio que ainda nem se falava muito nisso… Recordo que nos primeiros espectáculos, as pessoas olhavam-me com desconfiança e incredibilidade:
este gajo deve estar louco… Hoje em dia, noto uma diferença – a identificação das pessoas para as questões apresentadas, bem como a assimilação da informação cientifica é maior.

O espectáculo deu origem ao inicio de um projecto. Desde 2011 que o projecto
O homem que queria ser água vem promovendo uma consciencialização e sensibilização artística em torno da água e das questões ambientais. Nestes 8 anos, criou 3 textos, 2 dos quais são espectáculos de teatro – o Homem que queria ser água e AguaFontes; um conto infantil – O rapaz que se transformou em água; o ARG L´Aqva; uma Tese de mestrado em Ciências da Comunicação; @gua_um conto digital – animação hipermídia reconhecida internacionalmente, integrada na Electronic Literature Collection III e as Conferências Water Talks: Água, Arte e Consciência no Séc XXI, publicadas em suporte papel e digital.

Nestes 8 anos, e por ter andado por vários círculos institucionais, congressos e eventos relacionados com a água, sempre tive a sensação de ser uma espécie de ovelha negra, pois era o único a falar e dar o valor a este liquido impar e vital. Porque de resto, são sempre nomeadas as estatísticas, os números e as novas oportunidades de um sector em expansão… não é por acaso que a água é considerada o ouro azul.

Presentemente equaciono-me muito por este papel de alerta e sensibilização. Toda esta historia das alterações climáticas, ultimamente é vista como piada e chacota, além de um próspero negócio para pessoas, empresas e marcas que se dizem bio, recicladas e sustentáveis…

Por vezes penso que já não vale muito a pena… as pessoas só aprendem quando batem com a cabeça na parede… há uma ordem natural das coisas acontecerem e o ser humano nunca foi muito esperto em evitá-las… além de que os governos preferem continuar com interesses e subterfúgios, a tomar medidas efectivas.
E cada vez menos, se poderá alterar e fazer frente às forças da natureza e do tempo. James Lovelok disse numa entrevista “ Acho que ainda não evoluímos ao ponto de sermos suficientemente inteligentes para lidar com uma situação complexa como as mudanças climáticas.”

Contudo o projecto segue vivo, fluindo quando pode… E além de algumas ideias que me assaltam o pensamento, o espectáculo O homem que queria ser água, mantêm-se actual e na ordem do dia, infelizmente…

No próximo ano, irá ser apresentado em algumas escolas do 2º e 3º ciclos dos Municípios de Palmela, Sesimbra e Setúbal, integrado no Concurso “Água para todos”, uma acção de sensibilização da responsabilidade da ENA – Agência de Energia e Ambiente da Arrábida.

A todos aqueles que durante estes 8 anos, de alguma forma fluíram comigo,
o meu sincero agradecimento.

Be water! My friend!

 

Be Water! My Fiend!

Neste dia Nacional da água – 1 de Outubro – sinto que a mesma tem ficado um pouco em segundo plano nesta nova telenovela das alterações climáticas…
Talvez porque me toque mais – o projecto O homem que queria ser água                (
https://homemahgua.wixsite.com/teatro ) faz este ano 8 anos. 8 anos de pesquisas e inquietações sobre este líquido ímpar e vital. Contudo, a capa do Courrier Internacional deste mês – de onde são as fotografias – corrigiu o meu pensamento e volta a pôr em causa, quanto a mim, um verdadeiro problema vital que nos seca a passos largos… 

Acredito na ação e culpa do homem nestas questões ambientais – apesar de alguns cientistas dizerem que sempre houve alterações climáticas, que o que está a acontecer tem a ver com a alteração do eixo da terra, com manchas solares e raios galácticos… apesar do CO2 ser uma pequena parte da nossa atmosfera e por isso não poder ter este efeito de aquecimento sugerido, apesar dos modelos climáticos não serem de confiança e de alguns outros cientistas – estando ou não comprados/manipulados – lançam o pânico no sentido do aquecimento global. O medo, essa coisa que sempre fez e fará mover multidões…
Não se esqueçam que com o aquecimento da temperatura, a evaporação da água e a sua procura será bem maior. 

Mas apesar de tudo isto, acredito que os incêndios, a desflorestação, a poluição, a destruição e abolição de nascentes, os desvios de cursos de água, o não tratamento de resíduos, o consumismo de nós todos, as poucas políticas e directivas ecológicas, bem como os monopólios de grandes marcas, entre outras tantas coisas, afetam – sobremaneira – o ecossistema da terra. 

Gosto muito do James Lovelok, britânico, ambientalista e pesquisador independente, que escreveu o livro A vingança da Terra, onde a Terra é considerada um superorganismo – Gaia (terra para os antigos Gregos). Um sistema complexo, integrado e autorregulado, em que os seus organismos vivos e o seu ambiente físico evoluem sofrendo influencias recíprocas que objectivam a preservação da vida. Lovelok diz que hoje em dia “sabemos que a Terra, efectivamente, se autorregula, mas descobrimos demasiado tarde que essa regulação está a falhar e que o sistema da Terra avança rapidamente para um estado critico que colocará em perigo a vida que alberga”.
…. o que me parece bastante lógico e natural, porque vamos ver… tudo tem uma acção>reação! Se eu por exemplo te der uma chapada, tu vais devolver-me outra… ou pelo menos vais ficar com a cara vermelha e a latejar, e é se não te soltar o sangue do nariz, porque a minha mão é grande…

Sobre a Greta não falo… gostava de não pensar nisto, mas por vezes tenho a sensação que toda esta telenovela da emergência climática, é uma manobra de dispersão para surgir algo – que seja ele o que for, não será bom concerteza…